STATCOUNTER

Um espaço para que pesquisadores nas Ciências Humanas discutam suas idéias, seus projetos, suas análises.

Friday, June 29, 2018

Estatinas e o risco de morrer de câncer da próstata

Uma pesquisa recente feita na Finlândia trouxe informações a respeito das associações (ou não) entre o uso de estatinas e o risco de morte por câncer da próstata. É uma pesquisa que somente poderia ser feita em poucos países com excelentes bases estatísticas que são compatíveis. Analisaram 6.537 homens com câncer da próstata, acompanharam esses homens durante sete anos e meio e cruzaram as informações com o banco de dados que contem informações sobre o uso de medicamentos, no caso estatinas.

Durante o período em que os acompanharam (NÃO é o mesmo que o tempo desde o diagnóstico), morreram 617 pacientes.

A que conclusões chegaram? 

A primeira não ajuda quem já usava estatinas antes do diagnóstico do câncer. Não há associação entre o uso e a morte pelo câncer.

A segunda conclusão é muito diferente. O uso de estatinas DEPOIS do diagnóstico é o que conta. Reduz o risco de morte devida ao câncer (HR 0.80) e quanto mais estatinas usaram (suponho que dentro dos limites estabelecidos pelo médico), maior a redução.

A redução era mais clara entre os que usavam terapia hormonal e menor entre os que fizeram cirurgia e/ou radiação.

Deixo claro que há vários estudos sobre essa associação e nem todos mostram uma redução na mortalidade com o uso de estatinas.

GLÁUCIO SOARES iesp-uerj

Saiba mais:

Murtola TJ, Peltomaa AI, Talala K, Määttänen L, Taari K, Tammela TLJ, Auvinen A., Statin Use and Prostate Cancer Survival in the Finnish Randomized Study of Screening for Prostate Cancer. Eur Urol Focus. 2017 Apr;3(2-3):212-220. doi: 10.1016/j.euf.2016.05.004. Epub 2016 Jun 2.

Tuesday, June 26, 2018

A FIFA

Há quatro anos, por ocasião da Copa de 2014, fiz uma pesquisa secundária sobre a FIFA. A história da FIFA revela, para mim, três aspectos muito negativos: era uma instituição oligárquica e autoritária; era uma instituição corrupta, pessoal e institucionalmente, e era uma instituição eurocêntrica. Era, também, um momento com muitas manifestações de rua capitaneada por jovens estudantes contra o aumento das passagens de ônibus, criticando, também, os exagerados gastos com a contrução de estádios desnecessários e a realização da Copa do Mundo no Brasil.

Quanto mudou, de lá para cá? Não sei. O então presidente, Joseph Blatter, foi afastado por corrupção. Talvez o nível da corrupção tenha sido muito reduzido. Não sei.

A pesquisa gerou um artigo, “Bilhões x centavos”, que reproduzo:

Organizações internamente oligárquicas e autoritárias, como a Fifa, convivem mal com países democráticos. Algumas das bandeiras levantadas pelos manifestantes, que estavam presentes nas redes sociais há tempos, se referiam à conveniência (ou não) de realizar copas e olimpíadas quando faltam recursos para a infraestrutura, o transporte, a educação e a saúde. Há alguns pontos relacionados aos eventos esportivos internacionais que o Brasil sedia e sediará que são perturbadores e podem levantar novas bandeiras e alimentar novas manifestações. É um ninho de vespas esperando ser tocado.

A Fifa é uma organização democrática? Julgue você: ela foi fundada em 1904 e teve oito presidentes até agora (2014), com uma permanência média de 13,6 anos no poder. É muito. Jules Rimet, cujo nome marca a taça das Copas Mundiais, presidiu a Fifa durante 33 anos. Três ocupantes morreram na presidência. A presidência da Fifa revela sua origem eurocêntrica. Dos oito presidentes, sete eram ou são europeus. Nosso conhecidíssimo João Havelange, até agora, é a única exceção (atualização feita em 2018: oito em nove são europeus). Teve o inegável mérito de globalizar o futebol e a Fifa, contra, diga-se de passagem, os protestos de muitos europeus. Porém, ele também teve um extenso reinado, de 24 anos, marcado por acusações de corrupção. O atual presidente, Blatter (era o presidente em 2014), assumiu em junho de 1998. Já completou quinze anos na presidência.

Esse caráter autocrático, com concentração de poder e número ilimitado de reeleições, marca muitas associações esportivas, nacionais e internacionais. O próprio Havelange, quando presidiu a CBF, permaneceu 23 anos. Roberto Teixeira, que saiu pouco antes de 2014, outros 23. E há problemas de nepotismo e corrupção. Ricardo Teixeira foi casado com a filha de João Havelange, Lúcia. Outras organizações esportivas, nacionais e internacionais, também se caracterizam por extensas permanências dos que ocupam os cargos mais altos e por empregar parentes e amigos de seus presidentes ou diretores.

Organizações internamente autocráticas convivem mal com países democráticos. Segundo o “The Sun”, Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, afirmou que era mais fácil lidar com um líder forte, como Putin, do que com países democráticos, como a Alemanha. Blatter foi mais longe: afirmou que a Copa de 1978, na Argentina, foi uma forma de reconciliar os argentinos com o sistema político. Como sabemos, era uma ditadura militar. No dia 2 de outubro de 1968, ocorreu um massacre em Nonoalco-Tlatelolco, no México. Havia uma manifestação, como as no Brasil, lideradas por jovens. As forças repressivas abriram fogo. As estimativas do número de mortos variam entre 30 e 300. Menos de dois anos depois o México, ainda presidido por Diaz Ordaz, sediou as Olimpíadas e, em 1970, a Copa.

Alguns desses problemas são debatidos no mundo dos esportes. Os presidentes das associações dinamarquesa e alemã, Allan Hansen e Wolfgang Niersbach, criticaram a recusa da Fifa a discutir temas como a idade limite e a duração dos mandatos.

Os presidentes e altos funcionários ficaram e ficam por abnegação? Por altruísmo?

É difícil acreditar. Ninguém sabe quanto ganha Blatter. A Fifa não revela. Em maio deste ano, Mark Pieth, um advogado suíço, exigiu que a Fifa revelasse o quanto ganham os membros da sua hierarquia. Segundo a organização The Richest (http://www.therichest.org), o patrimônio de Blatter seria de dez milhões de dólares; Blatter teria admitido que seu salário era de £ 598.000 em 2010, cerca de dois milhões de reais ao cambio de junho de 2014.

A Fifa vive de eventos. Uma estimativa nos dá 87% das suas receitas neste quesito. Tem deixado a receita das entradas e ingressos para o país sede. Ajudou a África do Sul com 500 milhões de dólares, muito pouco, considerando os gastos do país com a construção e a reconstrução de estádios, a custosa melhoria dos transportes para os estádios, aeroportos e áreas de turismo, e segurança. O “New York Times”, no dia 20 de junho, foi enfático ao afirmar que “nem a Fifa nem o Comitê Olímpico Internacional financiam os estádios multibilionários, nem pagam pela infraestrutura, o policiamento... Mas são a Fifa e o COI que [recebem] os bilhões da receita das televisões”. Até os direitos televisivos e de marketing são reservados para a Fifa. Eles são o filão das copas. Quanto rendem? A Fifa fica com eles. Assinou um contrato com a ABC/ESPN para a transmissão de seus eventos de 2007 a 2014 somente na língua inglesa: 425 milhões. É um monopólio assegurado pela lei (nº 12.663 de 5/6/2012, Seção III, Art. 12).

O orçamento da Fifa para 2011-2014 estima uma receita de quase quatro bilhões de dólares. Feliz com esses resultados, Blatter aumentou a contribuição da Fifa para as seis confederações regionais: dois milhões e meio para cada uma. Aumento pequeno. Quinze milhões, no total, ou menos de 0,004% do mencionado orçamento.

Há um contraste entre o caráter autocrático da Fifa, as frequentes acusações de corrupção a seus próceres, suas altas receitas, os salários não revelados dos seus dirigentes, e os ideais modestos, socialmente igualitários e contra a corrupção dos manifestantes jovens e éticos fora dos estádios.

GLAUCIO SOARES


25/06/2013 9:11
Leia mais: https://oglobo.globo.com/opiniao/bilhoes-centavos-8803470#ixzz5J0fxyR8u
stest 

Tuesday, May 22, 2018

DADOS SOBRE O CÂNCER DA PRÓSTATA

Há quem não leve o câncer da próstata em sério. As estatísticas, no Brasil, deixam muito a desejar e as relacionadas com o câncer da próstata ainda mais.

Então???

Usamos estatísticas de outros países, deixando claro que elas são um substituto pobre para avaliar o que ocorre no Brasil.

Nos Estados Unidos, um em cada nove homens será diagnosticado com câncer da próstata. Os números oficiais no Brasil podem ser mais baixos porque muitos, muitos casos não são diagnosticados.

Naquele país, um homem morre devido ao câncer da próstata cada 18 minutos. São cinco só no tempo corrido de um jogo de futebol. E no Brasil?

Não sabemos.

Cada 18 minutos um homem morre devido ao câncer da próstata nos Estados Unidos. E no Brasil?

Não sabemos.

Perto de trinta mil americanos morrerão devido ao câncer da próstata em 2018. Entre 1995 e 2016, inclusive, 3.277 americanos morreram devido a ações terroristas nos Estados Unidos. As mortes devido ao câncer da próstata matam, em um só ano, nos Estados Unidos, nove vezes mais do que o terrorismo matou em vinte e dois anos. Não obstante, os homens americanos temem mais o terrorismo do que o câncer da próstata, e o financiamento antiterrorista é tão maior do que o financiamento para a pesquisa e prevenção do câncer da próstata, que essa comparação perdeu o sentido.

O câncer da próstata é o segundo câncer que mais mata homens no mundo, superado, apenas, pelo câncer do pulmão.

Leve o câncer da próstata em sério.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Thursday, March 08, 2018

A Independência de Raquel Dodge

Quando Raquel Elias Ferreira Dodge foi escolhida para comandar a Procuradoria Geral da República tive medo de que não fosse independente, de que estivesse a serviço do governo Temer.

Errei e me penitencio. Aliás, foi muito bom que eu estivesse errado. Já imaginaram o que seria uma PGR a serviço de Temer e seu governo?

Ufa!

GLÁUCIO SOARES  IESP-UERJ

PGR,procuradoria,Raquel Dodge,independência de Raquel Dodge

Friday, February 09, 2018

Bons resultados com a enzalutamida


Uma equipe internacional analisou as vantagens em usar enzalutamida quando o tratamento hormonal não produz mais os efeitos desejados e o câncer começa a avançar. Esse medicamento só é usado legalmente nos Estados Unidos quando, além de indicação de que a terapia hormonal começou a falhar (ex.: crescimento rápido do PSA) e há indícios de metástase. Esses indícios são em parte um sofisma legal e metodológico nos casos em que houve prostatectomia porque o crescimento do PSA normalmente resulta da proliferação de células cancerosas em algum lugar do corpo (sem esquecer que esse corpo já não tem próstata). Não obstante, a detecção é, em boa parte, dependente do avanço da tecnologia. Há duas décadas, a metástase não teria que ser tão avançada quanto hoje para ser detectada. micro metástases serão corriqueiramente detectáveis em mais algum tempo. Essa questão me interessa particularmente porque agora talvez seja uma questão de pouco tempo até que a terapia hormonal perca seu poder. Quando as metástases acontecem, medicamentos como abiraterona e enzalutamida podem ser usadas, quando ainda não, não podem legalmente ser usadas nos Estados Unidos, ainda que haja dados que mostram que o uso enquanto não há metástase detectável tem muitos benefícios.

Quando ler artigos na área e encontrar a expressão “endpoints” saiba que estão tratando de objetivos. O tempo que o paciente passa até que apareça uma metástase é chamado de MFS (metastasis free survival). É uma mediana o tempo que leva até que metade dos pacientes tenha metástase e metade não. Sem enzalutamida, esse período é de 14,7 meses; com enzalutamida, leva mais tempo para chegar até a mediana que é de 36,6 meses. Uma diferença de 21,9 meses.[i] Aperte o botão Controle e, ao mesmo tempo, clique encima do endereço abaixo para ver os gráficos.

https://infogram.com/revisando-o-efeito-da-enzalutamida-1hke600081m065r

Lembrem que isso é até a primeira metástase detectável.

O tempo até o PSA voltara a crescer é outro objetivo. Quanto mais tempo, melhor. Sem tratamento, na mediana o PSA cresce em menos de quatro meses. Com enzalutamida é muito mais: 37,2 meses, mais de três anos [P< 0,0001].

São excelentes resultados, mas há efeitos colaterais e alguns deles fazem com que os pacientes desistam do tratamento.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

[i] A diferença é significativa no nível de P< 0.0001.

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Tuesday, January 16, 2018

DECLÍNIO DO PSA DEPOIS DA TERAPIA HORMONAL E SOBREVIVÊNCIA

Na primeira leva de tratamentos do câncer da próstata, o objetivo, claro, é a cura. Cirurgia, radiação e vários outros tratamentos são usados nesse momento, isoladamente ou em combinação. Se, esgotados esses recursos, o câncer não for curado, a maioria dos médicos considera que o câncer não pode mais ser curado. Nos Estados Unidos, essa situação é comunicada como parte de um dever de oficio; além disso, suspeito que os pacientes americanos fuçam a internet mais do que os brasileiros.

Há dois importantes senões nesse momento:

· Isso não quer dizer que os pacientes vão morrer deste câncer. Em verdade, a maioria morre de outras causas;

· Os tratamentos passam a ter outros objetivos, como parar, postergar o avanço do câncer ou reduzir a velocidade desse avanço, reduzir dor e desconforto nos casos mais adiantados etc..

Os tratamentos mudam e dependendo da existência – ou não – de metástase e da agressividade do câncer, muitos pacientes podem ser acompanhados sem tratamentos mais pesados ou invasivos. Caso contrário, um tratamento comum é o hormonal que busca reduzir os níveis de testosterona. O tratamento pode ser “mono”, sozinho ou combinado.

Uma pesquisa recente mostra que a redução do PSA nos sete meses (nada de magico nesse número – poderiam ser seis meses, dez meses etc.) após o inicio do tratamento se correlaciona intimamente com a sobrevivência. Se o PSA baixar a 0,2 ng/mL ou menos as perspectivas são muito melhores se comparadas com os pacientes cujo PSA era de 4 ng/Ml ou mais. O risco de morte era 82% menor. Boa notícia para mim, porque o meu PSA baixou a 0,05 ng/Ml.

Para entender bem o próximo resultado é preciso ter uma noção do que é mediana. Se você ordenar os pacientes de acordo com a sobrevivência, a mediana é o número de meses que separa a metade que viveu menos da metade que viveu mais. A mediana da sobrevivência (em meses) dos que baixaram o PSA a 0,2 ou menos é muito menor do que o grupo cujo PSA ficou em quatro ou mais após sete meses do inicio do tratamento. No grupo com PSA mais alto a mediana da sobrevivência foi 21,6 meses. Metade desses pacientes morreu antes de 21,6 meses do início do tratamento. A outra metade morreu depois ou não havia falecido quando a pesquisa foi encerrada. No grupo cujo PSA, depois de sete meses, estava em 0,2 ou menos, metade morreu antes de 72,8 meses, mais de seis anos, e a outra metade ou morreu depois ou continuava viva quando a pesquisa foi encerrada.

É uma diferença muito grande.

A pesquisa incluiu uma mistura de pacientes que só foram tratados com a terapia hormonal e de pacientes que, além da terapia hormonal, fizeram, também, quimioterapia. Nessa nota comparo, apenas, os que fizeram a monoterapia hormonal.

O artigo foi publicado no Journal of Clinical Oncology.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

terapia hormonal,terapia hormonal combinada,sobrevivência com tratamento hormonal,sobrevivência de câncer de próstata

Wednesday, January 10, 2018

O câncer da próstata “dá” em cachorros?

A função de Piper era discreta, mas importante. Piper estava encarregado de afugentar animais, particularmente pássaros, das imediações das pistas do aeroporto onde trabalhava, em Michigan. Os choques de aviões com pássaros já causaram milhares de quase acidentes e alguns acidentes. A aterrissagem e a decolagem são os dois momentos mais vulneráveis de um vôo. Piper era um segurança exemplar e era amplamente reconhecido no mundo dos treinadíssimos cães de segurança.

Piper morreu na semana passada, depois de lutar durante um ano contra um câncer da próstata. Embora o câncer tivesse sido diagnosticado no início de 2017, Piper trabalhou alegremente até poucos dias antes de morrer. Dez horas por dia.

No Natal ainda estava protegendo os viajantes.

Há uma elaborada mitologia popular sobre esse câncer. Primeiro, não afeta somente seres humanos; também afeta outros mamíferos.

Segundo, embora seja muito mais comum entre idosos, também afeta homens maduros. Em casos raríssimos afeta até crianças. A prevenção é a nossa arma mais eficiente.

Finalmente, não é um produto da civilização contemporânea e de suas contradições. Já foi encontrado nos ossos de múmias multimilenárias. São casos avançados, com metástase óssea. Não são mais frequentes porque a esperança média de vida era inferior às faixas etárias mais vulneráveis ao câncer da próstata.

Piper evitou sustos, ferimentos, possivelmente vidas.

https://www.washingtonpost.com/…/rip-piper-a-heroic-dog-w…/…

https://www.cbsnews.com/…/piper-the-airport-dog-loses-batt…/

https://www.cbsnews.com/…/piper-the-airport-dog-loses-batt…/

RIP Piper, a heroic dog who kept airport runways safe

Two years after the border collie went viral, he chased his last snowy owl from the Michigan airport where he worked.

WASHINGTONPOST.COM

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Tuesday, December 12, 2017

Propina para um ou bolsa para dois milhões?

Vimos, hoje, a notícia a respeito da propina recebida por um funcionário da Receita Federal – a bagatela de 160 milhões. O Globo (G1) que, creio, não pode ser acusado de esquerdista, comunista etc. e tem uma competente equipe de repórteres e de revisores, informa que “Grupo dos irmãos Batista teria pago R$ 160 milhões para agilizar liberação de créditos tributários.” Essa é a propina total, paga ao longo de vários anos, a um fiscal da Receita. A delação foi feita pelos responsáveis pela própria JBS.

Há, da parte da direita mais sectária e mal informada, a impressão de que o Bolsa Família seria um programa caríssimo e muito mal administrado.

Nem um, nem outro.

Em 2015, o custo total do programa foi cerca de 27 bilhões de reais. Um pouco mais de meio por cento do PIB. No mesmo ano, as renúncias fiscais (impostos de que o Estado abriu mão), programas que alguns, ironicamente, chamam de “Bolsa Empresário”, equivaleram a 400 bilhões de reais em 2017. A fonte não é Granma, jornal oficial do PCC (cubano). É, uma vez mais, o insuspeitíssimo G1. Claro que há partes válidas no argumento de que as renuncias fiscais contribuem para combater a recessão etc.

O Bolsa Família tem benefícios; porém, muitos não dispõem dessa informação. É fácil aceitar dois desses: a elevação do nível educacional das crianças das famílias beneficiadas e uma redução dos gastos médicos graças a redução da fome e da desnutrição. E há quem defenda, com dados e seriedade, que o Bolsa Família tem um expressivo efeito multiplicador.

Porem, o meu foco não é esse. Voltemos à noticia de hoje, dos 160 milhões que teriam sido recebidos por um funcionário corrupto da Receita.

Comparemos com o Bolsa Família: quanto recebem os beneficiados? Quem são eles? Quem pode receber?

Busque a informação na Caixa Econômica: para participar, é preciso que a família esteja em situação de pobreza ou de extrema pobreza. As famílias devem ter renda mensal de até R$ 85,00 por pessoa (extremamente pobre) ou que sejam pobres, com renda mensal entre R$ 85,01 e R$ 170,00 por pessoa (pobre).

Se você, que pertence à classe média e mora no Rio de Janeiro (ou cidade equivalente) teve que pedir o almoço por entrega e um refrigerante, você gastou a renda mensal de uma pessoa extremamente pobre. Essa pessoa recebe do PBF aproximadamente a mesma quantidade, 85 reais.

Voltemos ao nosso possível corrupto da receita. Quantas pessoas seriam ajudadas pelo PBF com o que parece que o nosso corrupto recebeu de propina?

Só a propina equivale a 1.882.352 bolsas. Chegando perto de dois milhões de bolsas. Só esse ladrãozinho e seu grupo (se é que, realmente, receberam propina da JBS – tudo sujeito a confirmação) recebeu o equivalente ao benefício anual de 156.863 pessoas paupérrimas.

Essa é a medida da corrupção e das injustiças que elas representam.

Para visualizar melhor, encha o Beira Rio, o Engenhão, o Pacaembu e o Independência com pessoas muito, muito pobres, subnutridas, em andrajos, beneficiários do Bolsa Família. Aquela pessoa, ou aquele grupinho, afanou o equivalente à renda anual de todas essas pessoas.

Se você ainda acredita que o Bolsa Família é o principal erro, um problema dos mais sérios do Brasil, e que a corrupção é coisa pouca...

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

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Tuesday, December 05, 2017

PRESERVANDO O NOSSO CÉREBRO

O cérebro parece um músculo: exercitando-o se desenvolve; deixando parado, se atrofia.

Infelizmente, não é bem assim. Se fosse, os mundos acadêmico e intelectual estariam recheados de atletas olímpicos, cognitivamente falando. Porém, somos todos suscetíveis à demência e ao mal de Alzheimer’s.

O que não quer dizer que exercitar o cérebro seja inútil.

Uma pesquisa, que foi financeiramente apoiada pela Alzheimer’s Society da Grã-Bretanha, mostra que o que chamaram de Cognitive Training (CT), o treinamento cognitivo, pode contribuir para a prevenção da demência e para a manutenção das funções cognitivas em nós, coroas.

Como foi feita essa pesquisa?

Que resultados apresentou?

Primeiro, a pesquisa foi feita online, pela internet. Isso barateou enormemente o seu custo. Imagine como poderia baratear o custo do CT – para milhões de idosos brasileiros!

Seguiram um procedimento padrão: sortearam os participantes, adultos com mais de 50 anos, em três grupos: um foi treinado em Procedimentos Cognitivos Gerais; o segundo em Raciocínio e o terceiro pagou o pato: foi o grupo controle. Não foi treinado em nada. O treinamento durou seis meses e foi feito online.

Qual o objetivo principal? Contribuir para que idosos (mais de 60) tomem conta de suas atividades cotidianas, diárias. Continuem razoavelmente lúcidos e responsáveis por si mesmos.

Porém, os autores são pesquisadores e não perderiam essa oportunidade de avançar o conhecimento em outras áreas. A pesquisa tinha objetivos secundários: ver o efeito sobre o raciocínio, sobre a memoria verbal de curto prazo (essa aterroriza os coroas de verdade, >80 anos). Tem mais: recauchutar a memória funcional espacial, a aprendizagem verbal e a vigilância digital. O numero de coroas cobaias era grande: 2.912 com mais de sessenta. A garotada com mais de cinquenta até sessenta era ainda mais numerosa.

E os resultados?!!!? E os resultados?!!!?

Os pacotes de treinamento ajudam! O pacote geral e o com exercícios de raciocínio ajudaram os coroas de mais de sessenta a enfrentar os problemas do cotidiano. Os ganhos no raciocínio começaram mais cedo, em seis semanas; os outros demoraram mais tempo – seis meses.

Um grupo importante era os que já demonstravam algum declínio associado com a idade. São os gagás - como eu provavelmente já sou.

O que aconteceu com eles???

Aleluia! O Bom Deus não excluiu os gagás! Houve benefícios semelhantes aos obtidos pelos não gagás. Todos os grupos (menos o controle, claro) melhoraram.

Uma conclusão se impõe: o treinamento cognitivo online beneficia os coroas de diversas idades. Dentro de limites, mas beneficia. O maior benefício vem do treinamento no raciocínio.

Uma profecia (fácil!) também se impõe: treinamentos como esses e seus benefícios vão demorar a chegar ao Brasil e firmar raízes no país. Aqui tudo se faz através do estado, povoado em boa parte por analfabetos funcionais dedicados somente a aumentar o seu próprio patrimônio.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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PRESERVANDO O NOSSO CÉREBRO

O cérebro parece um músculo: exercitando-o se desenvolve; deixando parado, se atrofia.

Infelizmente, não é bem assim. Se fosse, os mundos acadêmico e intelectual estariam recheados de atletas olímpicos, cognitivamente falando. Porém, somos todos suscetíveis à demência e ao mal de Alzheimer’s.

O que não quer dizer que exercitar o cérebro seja inútil.

Uma pesquisa, que foi financeiramente apoiada pela Alzheimer’s Society da Grã-Bretanha, mostra que o que chamaram de Cognitive Training (CT), o treinamento cognitivo, pode contribuir para a prevenção da demência e para a manutenção das funções cognitivas em nós, coroas.

Como foi feita essa pesquisa?

Que resultados apresentou?

Primeiro, a pesquisa foi feita online, pela internet. Isso barateou enormemente o seu custo. Imagine como poderia baratear o custo do CT – para milhões de idosos brasileiros!

Seguiram um procedimento padrão: sortearam os participantes, adultos com mais de 50 anos, em três grupos: um foi treinado em Procedimentos Cognitivos Gerais; o segundo em Raciocínio e o terceiro pagou o pato: foi o grupo controle. Não foi treinado em nada. O treinamento durou seis meses e foi feito online.

Qual o objetivo principal? Contribuir para que idosos (mais de 60) tomem conta de suas atividades cotidianas, diárias. Continuem razoavelmente lúcidos e responsáveis por si mesmos.

Porém, os autores são pesquisadores e não perderiam essa oportunidade de avançar o conhecimento em outras áreas. A pesquisa tinha objetivos secundários: ver o efeito sobre o raciocínio, sobre a memoria verbal de curto prazo (essa aterroriza os coroas de verdade, >80 anos). Tem mais: recauchutar a memória funcional espacial, a aprendizagem verbal e a vigilância digital. O numero de coroas cobaias era grande: 2.912 com mais de sessenta. A garotada com mais de cinquenta até sessenta era ainda mais numerosa.

E os resultados?!!!? E os resultados?!!!?

Os pacotes de treinamento ajudam! O pacote geral e o com exercícios de raciocínio ajudaram os coroas de mais de sessenta a enfrentar os problemas do cotidiano. Os ganhos no raciocínio começaram mais cedo, em seis semanas; os outros demoraram mais tempo – seis meses.

Um grupo importante era os que já demonstravam algum declínio associado com a idade. São os gagás - como eu provavelmente já sou.

O que aconteceu com eles???

Aleluia! O Bom Deus não excluiu os gagás! Houve benefícios semelhantes aos obtidos pelos não gagás. Todos os grupos (menos o controle, claro) melhoraram.

Uma conclusão se impõe: o treinamento cognitivo online beneficia os coroas de diversas idades. Dentro de limites, mas beneficia. O maior benefício vem do treinamento no raciocínio.

Uma profecia (fácil!) também se impõe: treinamentos como esses e seus benefícios vão demorar a chegar ao Brasil e firmar raízes no país. Aqui tudo se faz através do estado, povoado em boa parte por analfabetos funcionais dedicados somente a aumentar o seu próprio patrimônio.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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Thursday, October 12, 2017

Nova geração de tratamentos hormonais?

A personalização do tratamento do câncer da próstata já está em curso. Personalização significa que a escolha do tratamento leva em consideração características do paciente, inclusive o estágio e o subtipo do câncer.

A Janssen Biotech, Inc., uma empresa farmacêutica, acaba de submeter um novo tratamento, baseado na apalutamida, que se aplicará somente a pacientes cujo câncer já não responde ao tratamento hormonal, mas ainda não apresentam metástases. É uma fatia importante do mercado.

Até o momento, a Food and Drug Administration (FDA), que é quem concede licença a novos medicamentos nos Estados Unidos, não concedeu nenhuma licença que se aplicasse a pacientes com essas características.

O que justifica esse pedido?

Os resultados de uma pesquisa clínica Fase III, chamada ARN-509-003 (SPARTAN) onde compararam os resultados do grupo experimental, que recebeu a apalutamida, com um grupo controle. A empresa considera que a apalutamida é a “nova geração” de tratamentos hormonais - além da abiraterona e da enzalutamida.

Que efeitos foram usados como critérios? O principal foi a ausência de metástases, mais exatamente o tempo que leva até o aparecimento da primeira metástase. A apalutamida promete uma “esticada” na duração desse estagio da doença, que é melhor (ou menos pior) que o seguinte, quando já há metástase. Dada a correlação entre o tempo até o aparecimento de metástases e o tempo até a morte, é provável que também signifique uma esticada na sobrevivência.

Converse com o seu urologista ou oncologista a respeito.

GLÁUCIO SOARES     IESP-UERJ

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Thursday, September 28, 2017

Alfred Stepan e a ditadura

Recebi a notícia do falecimento de Alfred Stepan, professor de “government” da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde ocupava a cátedra Wallace Sayre. Stepan fundou em Columbia o Centro para o Estudo da Democracia, Tolerância e Religião. Stepan foi, também, um dos estudiosos do regime militar no Brasil. Escreveu Os Militares na Política.

Quase acidentalmente, Stepan também influenciou o que se podia e o que não se podia publicar durante a ditadura. Não se podia publicar nada sobre a desigualdade de renda, que cresceu muito nos anos posteriores ao golpe. Creio que foi o Hoffman que escreveu um artigo acadêmico sobre a desigualdade de renda no Brasil que não podia ser publicado, tal a severidade da censura que afligiu o Brasil durante a longa noite de 21 anos por que passamos.Circulou datilografado, quase como um pergaminho religioso. Em palestra, Stepan, já um renomado professor americano, mencionou a desigualdade de forma veemente e um resultado, bem-vindo e inesperado, foi que passamos a poder estudar e publicar a respeito de algo que estava acontecendo e que afetava muito a vida de dezenas de milhões de brasileiros. Não dava mais para esconder. Mas era proibido publicar. A censura era feroz e imprevisível.

Ironicamente, muitos pesquisadores sentíamos uma solidariedade com os colegas que foram oprimidos por Stalin e sucessores na União Soviética que também eram obrigados a datilografar copias de seus trabalhos e suas pesquisas, circulando-as privadamente entre os colegas para receber críticas e comentários, sempre com receio de que acabassem nas mãos de um espia do regime. Eram os suados samidatz.

Essa mesma censura ainda nos impede saber quanta corrupção havia no regime militar. Os escândalos eclodiam, mas eram rapidamente abafados. Hoje, diante da podridão dos últimos governos, muitas pessoas passaram, erroneamente, a romantizar o regime militar. Não viveram aquela opressão, alimentando-se de contos da carochinha. Os que eram jovens adultos quando a ditadura começou ou já morreram ou estão na Terceira Idade avançada.

Por incrível que pareça, a memoria daquele período de trevas em boa parte se perdeu.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

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Saturday, September 23, 2017

Aproximando o futuro

Você, ou um ser querido, enfrenta um câncer da próstata. O avanço do câncer preocupa, seja porque está avançando, seja porque pode recomeçar a avançar. Você olha com esperança para as pesquisas, os novos medicamentos que estão sendo testados, novas terapias ETC. Você sabe que a sobrevivência aumentou muito nos últimos dez anos, em parte devido a novos tratamentos.

Porém, você também sabe que muitas pesquisas acabam não produzindo novos medicamentos e que muitas das que alavancam tratamentos mais avançados demoram muito tempo até estarem disponíveis.

Pesquisadores consultados afirmaram que, na atualidade, a duração prevista das pesquisas é de 11,5 a 16,2 anos, calculando amostras de cerca de mil pacientes, com um tempo de recrutamento de cerca de cinco anos. São pesquisas que não beneficiarão muitos dos atuais pacientes, que morrerão antes e não somente de câncer. Nas idades avançadas da grande maioria dos pacientes, muitos morrem - a maioria de outras causas - em quinze anos.

Se você tem esse tipo de preocupação, você vai gostar da notícia abaixo.

Os pesquisadores de um grupo de trabalho chamado

ICECaP acompanharam pacientes durante dez anos – na mediana – e concluíram que há uma correlação muito alta entre a sobrevivência em geral (, chamada de OS, overall survival, incluindo todas as causas de morte) e o tempo que leva até a metástase, em pacientes com canceres localizados.

Em parte, isso é óbvio e esperado. É a metástase que mata. Quanto mais tempo até a metástase, maior a sobrevivência.... Porém, o tempo que leva do aparecimento da primeira metástase até a morte não é sempre o mesmo. Longe disso.

Exemplo: se a metástase for para uma víscera, particularmente para o fígado, a sobrevivência mediana é menor do que a metástase mais comum, que é para os ossos.

Talvez muitas dessas diferenças já estejam embutidas no tempo até o aparecimento da primeira metástase.

A relevância para o desenvolvimento de novos tratamentos e novos medicamentos é que não será obrigatório esperar até que muitos pacientes morram para apresentar conclusões preliminares das pesquisas e submeter esses possíveis tratamentos e medicamentos à apreciação dos órgãos reguladores, que devem aprovar o seu uso para que possam ser fabricados e vendidos.

Terão que esperar menos, em alguns casos, vários anos menos.

Qual o resultado animador? A correlação de Kendall entre a OS, sobrevivência geral, e o tempo livre de metástases (metastasis-free survival - MFS) é altíssima, 0,91. O chamado coeficiente de determinação, R2, é 0,83. A regressão foi entre a sobrevivência geral aos oito anos e a ausência de metástase aos cinco anos.

Confirmada essa associação para vários tipos de pacientes, os medicamentos chegarão às prateleiras três anos antes! É imaginável que esse ganho seja aumentado se essa associação se revelar tão íntima entre medidas com um intervalo maior entre elas.

Tratamos de estender vidas humanas. Se os medicamentos mais recentes estivessem disponíveis três anos mais cedo, dezenas de milhões de anos de vida poderiam ter sido salvos em todo o planeta.

Vale a pena ler mais:

Xie W, Regan MM, Buyse M, et al. Metastasis-free survival is a strong surrogate of overall survival in localized prostate cancer [published online August 10, 2017]. J Clin Oncol. doi:10.1200/JCO.2017.73.9987.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Sunday, March 18, 2007



Friedman AS, Glassman K, Terras BA. Belmont Center for Comprehensive Treatment, Filadélfia, PA USA. "Violent behavior as related to use of marijuana and other drugs" J Addict Dis. 2001;20(1):49-72. Essa pesquisa analisou 612 adultos negros americanos. Havia dados desde o nascimento que permitiram estudar dez tipos de drogas e oito tipos de crimes violentos. Os autores dispuzeram de 51 variáveis para serem usadas como controles. Surpreendentemente, a freqüência do uso de maconha estava associada com a maior probabilidade de cometer crimes usando armas. A única outra droga com associação semelhante é o álcool. O uso da maconha também se associava com as tentativas de homicídio e com colocar outras pessoas em situação de perigo. O consumo de cocaína, crack e maconha estava associado ao tráfico.

Saturday, March 17, 2007



Os exames de câncer de próstata são probabilísticos: somente quando uma biópsia nos dá um resultado positivo (leia-se, com câncer) é que há certeza, ainda assim com aquela pequena margem de dúvida derivada de erros de laboratório. Por isso, os exames são repetidos. Aliás, quando fui operado notei que retiravam meu sangue logo antes da operação. Eu acreditava que faziam isso desde antes, acumulando o sangue durante algumas semanas, mas me informaram que era mais seguro fazê-lo no próprio ambiente de cirurgia, porque eliminava "clerical errors", erros de secretária - colocar o rótulo de um paciente no sangue de outro. A existência de estatísticas adequadas permitia essa conclusão.
Porém, um exame de PSA alto e/ou um toque retal suspeito representam uma probabilidade mais elevada de que exista câncer e o procedimento seguinte é a biópsia, que também é probabilística. Eu "fiz" dez agulhas sem que o câncer aparecesse, mas estava lá. Esses procedimentos geram muita angústia.
O Dr. David A. Katz do VA Iowa City Health Care System acompanharam 109 homens que tiveram testes com resultados suspeitos, mas com biópsias negativas, comparando-os com 101 homens com testes normais. Aplicaram uma escala de preocupação com câncer de prostata que varia de zero a cinco. Os homens com testes suspeitos tiveram um escore médio de 4,5 e os controles 3,9. Esses resultados foram publicados em Urology 2007;69:215-220.
Essa pesquisa, e muitas outras, nos dizem que temos que desenvolver testes mais exatos e mais rápidos: até lá, temos que acelerar os resultados sem comprometer a qualidade porque o preço que está sendo pago pelo paciente que espera é alto.

Saturday, February 18, 2006

Análise de conteúdo

Tati:

que coincidência!!! Eu ando interessado em fazer uma análise do conteúdo das leituras dos cursos de pós-graduação (talvez da graduação também) em sociologia e ciência política, além de outra de material escrito (cartas, e-mails etc) vis-à-vis o referendo... Não sei a quantas andas, mas há um programa leve, grátis, TextStat, que fará a contagem das palavras, que podes codificar etc, e faz a concordância também. Continuemos trocando fichinhas. A Marielle, que está nessa lista, deverá participar desse projeto. Aliás, não sei se há outras pessoas interessadas em conversar e ler um pouco sobre análise de conteúdo. Se houver, é bom sinalizar.

Gláucio

Friday, February 17, 2006

A organização dos economistas....

Há vários sites que proporcionam uma quantidade gigantesca de informação. Neles, a dificuldade é como selecionar.Um site interessante, de orçamento zero (todo o trabalho é voluntário), é hospedado agora pelo Depto. de Economia da Universidade de Connecticut. Antes estava em Montreal. Lista os trabalhos de 9120 autores; séries de papers, 1494 series, 447 revistas, software etc.Talvez um dia cheguemos lá. Vale a pena dar uma espiada:

Idéias

Sunday, February 12, 2006

Quem quizer comentar....

Pretendo publicar alguns outros nessa linha. Por isso, solicito críticas. Não é leitura obrigatória, nada disso.


Movidos a ódio
Gláucio Ary Dillon Soares



[01/FEV/2006]


Em 26 de junho de 1992, um desempregado chamado Raymond Ratima matou sete membros de sua família em Masterton na Nova Zelândia; um mês antes, o fazendeiro Brian Schlaepfer, de 64 anos, trucidou seis membros da sua família antes de se suicidar, perto de Auckland. Foram exterminadas três gerações da família. Em 1996, Martin Bryant, um australiano de 28 anos com longa história de problemas psicológicos, queria matar turistas. Com um rifle, entrou num restaurante, caminhou calmamente até perto de cada vítima e atirou. Levou e queimou três reféns. Matou 35. Do outro lado do mundo, em Dunblane, na Escócia, no mesmo ano, Thomas Hamilton entrou numa escola primária com duas pistolas, dois revólveres e 743 cartuchos. Fez 105 disparos durante quatro minutos, matando 16 crianças de 4 a 6 anos de idade e um adulto. Se suicidou depois. Em 2002, em Erfurt, na Alemanha, Robert Steinhaeuser, de 19 anos foi expulso da escola à qual voltou, vestido de ninja, com uma Glock de 9 mm, matando 13 professores, dois estudantes e uma policial, se suicidando depois. Havia feito ameaças de morte. Em São Paulo, em 1999, o estudante Matheus da Costa Meira matou três pessoas a tiros num cinema em um shopping.

Há muitas centenas de um tipo especial de assassinos múltiplos, chamados de rampage killers, difíceis de entender, diferentes dos demais assassinos. O número pode ser muito maior. Foram estudados, principalmente, nos Estados Unidos, mas ocorreram em muitos países. A evolução da tecnologia da morte significa que o mesmo assassino que antes matava duas ou tres pessoas hoje pode matar vinte, como argumenta Tom Diaz em Making a killing: the business of guns in America. A letalidade de facas ou espadas é muito menor do que a de armas semi-automáticas: exige proximidade física, dá possibilidade de defesa e de fuga. Alguns rampage killers se encastelaram em pontos privilegiados, como torres de observação, e escolheram em quem atirar.

Os rampage killers diferem dos demais homicidas. Poucos tentam fugir. Um terço se suicida na hora; outros 9% se suicidam depois. A idade faz diferença: poucos jovens se suicidam, muitos dos adultos o fazem. No total, metade morre logo após o crime, por suicídio no local ou alvejado por terceiros, usualmente a polícia.

Essas mortes são imprevisíveis e inevitáveis? Não. Muitos dão sinais que não são reconhecidos; alguns avisam o que pretendem fazer. Não são levados a sério.

Os lugares variam, mas freqüentemente são ambientes onde se reúnem várias pessoas, usualmente públicos, conhecidos dos assassinos. Os estudantes preferem os próprios colegas e professores nas escolas, mas às vezes matam também outras pessoas, inclusive membros da sua família. Talvez a mais tristemente conhecida seja a Columbine High School, onde dois adolescentes mataram treze e feriram 23. Pessoas que foram despedidas ou preteridas em aumentos e promoções matam em seus ambientes de trabalho. Os rampage killers não respeitam ninguém: em Dunblane eram crianças pequenas; um fascista atacou uma creche em Los Angeles. Em Fort Worth, Texas, sete pessoas foram mortas no fim dos cânticos numa igreja. As vítimas do ódio são muitas e diversas.

Matam a esmo dentro de um ambiente escolhido e, dependendo do poder de fogo e da rapidez do atendimento da polícia, podem matar muitas pessoas.

O que causa isso?

Muitos pensam que esse comportamento é estimulado pela violência na TV, no cinema e nos jogos. O New York Times examinou uma centena de casos, dos quais apenas seis tinham claro interesse em vídeo games violentos e outros sete em filmes violentos: não sabemos se são mais ou menos do que a população. Seria uma explicação parcial, pois deixa de fora oitenta e sete assassinos. Porém, também sabemos que a mídia tem um papel importante na divulgação de exemplos: 14% dos assassinos conheciam massacres anteriores. Os rampage killers tiram idéias de algum lado. Essas idéias podem vir de episódios semelhantes, específicos, e não apenas da violência mais genérica na TV, cinema ou jogos.

A pesquisa do Times mostra que familiares, professoras e até profissionais da saúde mental não viram os sinais ou não os consideraram relevantes. As ameaças devem ser levadas em sério: 63% tinham feito ameaças e 54% tinham feito ameaças específicas a membros do grupo que atacaram. James Calvin Brady disse a seus psiquiatras que queria matar gente; eventualmente foi a um shopping em Atlanta e matou muitos. Os problemas mentais se destacam: mais da metade tinham um histórico psiquiátrico sério. Um quarto dos rampage killers deveria tomar remédios psiquiátricos, mas 58% tinham parado de tomar seus medicamentos antes dos crimes - ponto importante, porque vários tipos de doentes mentais, se medicados e tratados, não são nem mais nem menos agressivos do que a população, mas se transformam quando param de tomar os medicamentos. Lothar Adler, estudioso dos assassinos múltiplos, enfatiza as explicações psiquiátricas e a prevenção: em dois casos, soldados alemães que dirigiam tanques saíram catando gente para atropelar. Foram tomadas precauções e, em um quarto de século, não houve repetições.

Esses atos não resultam de um impulso: podem ter um longo período de amadurecimento, mas geralmente são planejados. Há eventos precipitadores: a perda do emprego, que pode ser catastrófica, estava presente em 47% dos casos; os problemas de relacionamento como divórcio ou fim de namoro, estavam presentes em 22%.

Uma percentagem mais alta dos rampage killers esteve nas Forças Armadas ou na polícia, em comparação com os homicidas ''comuns''. Tampouco são predominantemente membros de minorias étnicas, são mais velhos e tiveram mais educação formal. Proporcionalmente, há mais homens do que nos homicídios comuns, embora haja mulheres rampage killers.

Os pesquisadores do Times acreditam que a característica que mais diferencia os rampage killers dos demais assassinos é que eles não tentam nem querem fugir. Dos cem americanos estudados, nenhum escapou: ou morreram ou foram presos.

Comum a todos: são movidos a ódio

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Saturday, February 11, 2006

Pós Graduação

Acredito que os cursos de pós-graduação em Ciências Humanas no Brasil, inclusive Sociologia e Ciência Política, seguem um modelo arcaico. Formamos muitos mestres e doutores "de mentirinha" e poucos pesquisadores aptos a contribuir para o acêrvo de conhecimento sobre o Brasil. Formamos, ocasionalmente, bons pesquisadores, produtos dos esforços combinados de alunos excepcionais e professores dedicados. Não obstante, as instituições não garantem a qualidade dos alunos. Temos excelentes professores e muitos bons conhecedores de teoria, mas poucos pesquisadores efetivamente competentes. A pós-graduação não está pensada para formá-los. Aconselho a todos a que, onde possível, façam a pós-graduação fora do país, num bom departamento numa boa universidade. Não pensem em fazê-la com "fulano", mas num bom departamento. Há excelentes programas fora dos Estados Unidos, mas há uma grande concentração dos programas de qualidade naquele país. Esta e outras questões podem ser debatidas neste espaço. Os que seguem o programa de estudos e leituras fazem dois cursos, um introdutório e outro intermediário, de Criminologia. É grátis, mas exige muitas leituras, algum conhecimento de idiomas, competência mínima para surfar a internet e, eventualmente, aprendizagem de métodos quali-quanti. O espaço é limitado e reservado a participantes ativos. Quem não faz o dever de casa não tem porque permanecer neste espaço.

Precursores

Morselli publicou trabalhos empíricos sobre o suicídio 18 anos antes de Dürkheim. Há um artigo em italiano, de Peloso PF. publicado na revista Pathologica 1992 Jan-Feb;84(1089):107-20. Não é nada fácil conseguir. Peloso compara Morselli, Dürkheim e Freud.
Um sumário aguado em Ingles se encontra aqui

A leitura de Morselli gera uma pergunta intrigante: porque Morselli "sumiu" do mapa ao passo que Dürkheim se transformou em um clássico? Existe medalha dedicada a Morselli pela International Academy of Suicide Research, que honra seu pionerismo e competência. Veja o anúncio:

Morselli Medal

Background History
The Academy most distingiushed award is the Morselli Medal, named after Enrico Morselli, late of the University of Genoa School of Medicine. To Morselli goes the credit for the first exhaustive application of statistical and epidemiological methods to the study of suicide. His work, represented in a massive treatise published in 1879, anticipated by eighteen years, the much better known Suicide: A Study in Sociology by Emil Durkheim, which did not appear until 1897. Morselli was therefore the first scientific, statistically informed epidemiologist in suicidology.

In his treatise Morselli addressed the influence of increasing social complexity on suicide, as well as the influence of individual biological and social circumstances, suicidal methods, and treatment of suicidal patients. He emphasized the importance of mental anguish as a major factor in suicide.

He published about 146 papers in the field of psychiatry, 42 in scientific philosophy, 72 in anthropology, 63 in medicine and neuropathology, 60 in psychology, 60 in forensic psychiatry and legal medicine, and 50 on sociological and educational questions. Morselli was the first to describe what we now know as body dysmorphic disorder—he coined the term dysmorphophobia. He
was interested in questions of euthanasia. Like many other scholars of his time, he also concerned himself with psychic research.

The medal was first awarded in 2003 and the first recipient of the medal was Marie Asberg of Sweden in recognition of her pioneering contribution to the biology of suicidal behavior.

(1) Morselli, E (1879) II Suicidio. Saggio di statistica morale comparata. Milano: Dumolard. Vol. 21 of the “Biblioteca Scientifica Internazionale”.– Idem (1881). Suicide. An Essay On Comparative Moral Statistics…Revised and Abridged By The Author For The English Version. London: C. Kegan Paul. – Idem (1881). German version.

(2) Goldney, R (2000) Pre-Durkheim Suicidology. Crisis 21: 181-186

(3) Vidoni, G (1929) Ricordando Enrico Morselli. Archivo Italiano di Psicologia 7: 161-16

(4) Morselli, E (2001) Dysmorphophobia and taphephobia: Two hitherto undescribed forms of insanity with fixed ideas. Trans. L. Jerome. History of Psychiatry, 12: 103-114

Enrico Morselli

1852-1929

Uma introdução moderna ao tema do suicídio, que tu podes baixar

Veja suicide prevention triangle

É introdutório e bem organizado. Pode ser lido em primeiro lugar, como preparação. É leitura aconselhada para entender o campo, mas não é leitura obrigatória.

Outros "clássicos" na análise do suicídio

NÃO é consulta obrigatória.
Maurice Halbwachs, Les causes du suicide (1930)
trabalhou num estilo semelhante, quatro décadas depois. Leia e compare algumas partes, que estão disponíveis no Google (clique aqui).

Páginas dedicadas a Dürkheim

Há várias páginas dedicadas a Dürkheim. Consultá-las não é requisito para seguir no seminário. Veja, se o desejar, as seguintes URLs
uma em Norfolk
outra interessante é

Thursday, February 09, 2006

Integrando Dürkheim, análise de conteúdo e psiquiatria: poetas suicidas e não suicidas: Word Use in the Poetry of Suicidal and Nonsuicidal Poets

Pesquisa difícil, com muitos problemas metodológicos, mas um grande estímulo à interdisciplinaridade e à análise de conteúdo de textos, esquecida pela nossa sociologia. O artigo inteiro está disponível. Os poetas e o suicídio.

Para ver as tabelas clique onde diz Table etc.

O livro de Kay Jamison (o primeiro da lista) é importante para este artigo, mas também os dois livros dela sobre o suicídio, traduzidos para o portugues.

Complicando Dürkheim: Measuring Multiple Dimensions of Religion and Spirituality for Health Research

Religião é muito mais do que o nome da religião organizada que alguém segue. Há intensidade, crenças, dimensões, todas com consequências para o comportamento das pessoas. Clique aqui

Religiosity and the Earliest Stages of Adolescent Drug Involvement in Seven Countries of Latin America

Este artigo trabalha dados de sete países latino-americanos, relacionando (negativamente) religiosidade e uso de drogas.

Religiosidade, IDADE e suicídio

Muitas análises dürkheiminianas das relações entre religiosidade e suicídio deixam a idade de fora. Esta não deixa<
Este é o resumo. Os estudantes precisarão de acesso a esse provedor pago.
Clique aqui

857 trabalhos em Criminologia e os dados usados pelos autores

Presente para os criminólogos: 857 artigos/relatórios/livros em Criminologia e acesso aos dados que foram usados. À sua espera, em Michigan, no ICPSR, pela internet. O Banco de Dados da UNICAMP, moderado pela Rachel Meneghello, tem acesso a muita coisa. Clique aqui